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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

A Poesia do Silêncio

A POESIA DO SILÊNCIO


Encontro no silêncio
O grito das palavras
Paradas,
Escondidas, algemadas!
Encontro no silêncio
A poesia mais concreta
De um mendigo ou de um poeta
Perdido
Na multidão!
Encontro no silêncio
O carinho de um irmão,
Cujo nome desconheço
E junto ao qual adormeço
Quando desponta a manhã!
Encontro no silêncio
A ternura a soluçar
Quando as estrelas vão pousar
Sobre a minha telha vã!

Encontro no silêncio
O verbo mais que perfeito,
E sinto vibrar em mim
A luz, a graça e o jeito
Dum Alentejo sem fim!

Manuel Justino Ferreira (Poeta que parte…Poemas que ficam)

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Alentejo... meu irmão!

Alentejo… meu irmão!

Tem nos olhos um sol posto
A despedir-se da vida!
Cada ruga do seu rosto
Foi uma esperança perdida!

Ficou deserta a aldeia,
Até o ribeiro secou!
Mar d’angustia em maré cheia,
Onde o futuro naufragou!

Do velho monte sem porta
A solidão é vizinha…
E nos canteiros da horta
Só cresce a erva daninha!

Alentejo… imensidade,
Respirando quase a medo!
Alentejo… liberdade
Para viver no degredo!

Minha açorda de poejo,
Meu bolo de requeijão!
Meu velho, meu Alentejo,
Meu poema… meu irmão!


Manuel Justino Ferreira (Poeta que parte... poemas que ficam)

quarta-feira, 26 de março de 2008

Ingratidão

INGRATIDÃO

Eu canto versos rasgados,
Canto rostos magoados,
Canto o riso, a tempestade!
Eu canto as pedras da rua,
A sombra da mulher nua
Que se veste de saudade!!!

Eu canto fado canalha,
A vela que s’amortalha
Numa garrafa vazia…
Canto luz, a noite escura,
Canto espigas de ternura,
Canto fome de poesia!

Eu canto silêncio, canto,
Canto a tristeza e o pranto
Da mais terna violeta…
Sou versos que s’escreveram,
Esquecidos numa gaveta!!!

Canto ao homem que escreveu
Poemas que ninguém leu
E se chamou coração!
Canto àquele homem honrado
Qu’este mundo desvairado
Pagou com ingratidão!!!

Manuel Justino Ferreira (Poeta que parte… poemas que ficam)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Liberdade

LIBERDADE


Conheço um cão magricela
Qu’ anda aí ao abandono,
Que nunca teve uma trela
Nem a carícia de dono!

Sua cama é o relento…
Faz-me pena o pobre bicho,
Que busca o magro sustento

nos caixotes do lixo!

Cão das frias madrugadas,
Da angustia e do desdém…
Mesmo levando pedradas
Jamais mordeu a alguém!

Mesmo em dias que não come
Não deixa de estar contente…
Antes quer morrer de fome
Que estar preso a ‘ma corrente!

É de raça indefinida
E tem junto à lealdade
O maior bem desta vida,
Qu’ é viver em liberdade!


Manuel Justino Ferreira (Poeta que parte… poemas que ficam)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Assim...

Assim…

Não, não… e não!
Ninguém me abra a porta da prisão…
Quero estar encarcerado e só!
Que ninguém pense em mim
Com sentimento de dó!!!

Deixem-me estar assim,
Sozinho… com meus poemas!!!
Lá fora… apenas existem
Cadáveres e problemas!!!

Manuel Justino Ferreira (poeta que parte... poemas que ficam)

Manuel Justino Ferreira

Manuel Justino Ferreira nasceu em Montemor-o-Novo no dia 18 de Setembro de 1928.
Poeta multifacetado, Manuel Justino não só cantou Montemor e o Alentejo de uma forma muito particular como, atento e interessado por tudo o que o rodeava, satirizou e criticou situações, ou comportamentos sociais, que achava menos correctos. O Amor e a Solidariedade também são sentimentos que podemos encontrar em muitos dos seus poemas.
Surpreendido por um problema cardíaco, o Manuel Justino viria a falecer a 28 de Outubro de 2002, sem que tivesse publicado, em livro, nenhum dos seus poemas, como acontece à maioria dos poetas do interior.
Em 2004 foi feita justiça, e o Grupo de amigos de Montemor publicou um livro com uma compilação de poemas seus.