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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Quando vinha trazia

QUANDO VINHA TRAZIA


Quando vinha trazia
frutos na voz do vento
- pássaro verde melodia
a beber-lhe o pensamento.


Ausente
o seu corpo não sabia
o invento da palavra
apenas estremecia
na flor da madrugada

José da Fonte Santa (Magia Alentejana)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Daqui te escrevo

DAQUI TE ESCREVO


Daqui te escrevo
na amargura do tempo
envolvida na intriga
mais torpe: que por falta
                de coragem
não te dou conhecimento.


Daqui te escrevo
num ritmo pardo
onde mal respiro
num apertado silêncio
onde um grilo ferido
            deixou de cantar.


Aqui sou indiscutivelmente
um desconhecido.
Ainda bem.

José da Fonte Santa (Magia Alentejana)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Fui o Marinheiro

FUI O MARINHEIRO

Fui o marinheiro
...............imprudente
que naufraguei nos sentidos
viagem duma alegria
....................aparente
por peixes sem nome
....................mordido
corpo e alma

José da Fonte Santa (Magia do Alentejo)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Lavrador da várzea grande

LAVRADOR DA VÁRZEA GRANDE


Lavrador da várzea grande
a terra que me deu de meias
só nela a raiva cresceu;
a terra era tão dura
que o arado não rompeu.

Levei a minha enxada
p’ra sua terra cavar…
mas, a enxada o que fez
foi o meu corpo suar

Do suor que caiu
a semente apodreceu;
adubada com secura
só a raiva ali nasceu…

Lavrador da várzea grande
que terra você me deu!...

José da Fonte Santa (Magia Alentejana)

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Estúpido aquele e o outro

ESTÚPIDO AQUELE E O OUTRO

Estúpido aquele e o outro
cheios de raiva porque nasci
Eu que nunca quis mal
a ninguém…
Eu que desenhei mundos
para lhes ofertar
Eu que nunca me julguei
mais que ninguém…
gritos pardos e amarelos…
gritos claros e escuros
no mais fundo de tudo
De tudo!...
Boca em forma
de âncora
- seca garganta
do mar.
Repouso de suicidas.
Cobertas de mil peixes
estão as tuas mãos,
feitas de laguna brancas,
adormecendo o teu rosto
transparente e lunar.
Você que está distante
não me pode compreender.
Grito de raiva e silêncio.
As caras dos inimigos
são da cor do anoitecer.
O resto
não sei se existe…
Os meus amigos de infância
não acreditam em mim…
Eu que tinha uma flor
de versos para lhes oferecer
Eu que inventei uma cidade
apenas para lhes oferecer
Eu que, de mim foram os ossos
mas isso é muito mau de roer.

José da Fonte Santa (Magia Alentejana)

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Toda a Praia

TODA A PRAIA

Toda a praia
era nossa
no calor da noite…

O mundo era nosso
(tão pequenino o mundo)

A tua voz
era maior que o mundo
(a tua voz!)

O mar!
(tão pequenino o mar)

O teu corpo
se dobrava
num ritmo louco…

Dizias sempre:
quando eu partir
vem aqui, promete
chama por mim…

José da Fonte Santa (Magia Alentejana – Poesia e desenhos)


José da Fonte Santa (1925-1998), natural de Colos, viveu em Santiago do Cacém desde os oito anos.
A vida literária deste poeta, prosador, e desenhador, teve início com a publicação, em 1954, da novela “Silêncio quebrado”. Em 1957, de parceria com mais alguns poetas, publicou, em Santiago do Cacém, o número um de “Encontro – Cadernos de poesia”. Colaborou com alguns jornais e revistas, e participou na “Antologia de poetas do sec. XX”, organizada por Francisco Dias da Costa, em 1982.