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sexta-feira, 16 de julho de 2010

Madrugada na Planície

MADRUGADA NA PLANÍCIE

Cresce vasta a planície 
Ao redor de mim. 
Todos os meus sentidos despertos, 
Todo o silêncio encoberto pela 
Lenta ascensão da madrugada.

 
A lua vai alta, 
O céu uma barreira intransponível 
Para todos aqueles
Que desenham círculos nas nuvens,
Através da imaginação.


A água descansa no orvalho da noite,
Plantas rastejam na camuflagem espessa da erva molhada.
Todos os animais dormem,
Ao longe rajadas de vento espreguiçam-se nos sobreiros secos.


Na solidão dos campos sem fim,
Crianças e velhos rezam a St. Bárbara.
Que anda pelo céu armada
De sombras cintilantes e de noivas ondulantes
Que, para sempre, voam
De nuvem em nuvem,
De castelo em castelo,
De árvore em árvore,
De avejão em avejão.
Dançando na noite
E recriando o sibilar do vento.
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Cresce vasta a planície ao redor de mim.
Desenho no espectro das árvores
Uma noiva eterna transformada em oliveira.
Para sempre noiva, cantando
Sibilos de vento rasgados de silêncio.
Aqui, no meio do Alentejo,
No limiar do mundo


Jorge Viente (letras et cetera)

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Auto-poiesis

Auto-poiesis

3.


quando disseres pedra, diz antes poema
quando disseres rosa, diz antes poema
quando disseres homem, diz antes linguagem
quando disseres veia, diz antes sílaba
quando disseres a montanha, diz antes palavra
quando disseres dança, diz antes:

o verso é tudo o que de real existe
e auto recria-se sempre no sangue.

quando disseres livro, diz antes ilusão
quando disseres papel, diz antes morte
quando disseres ordem, diz antes a treva
quando disseres apolo, diz antes controlo.

quando disseres poema, diz antes vida.



jorge vicente

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Um Nome Apenas

UM NOME APENAS


não existe uma dimensão sacerdotal
do amor as vestes são as mesmas
que enfeitam a ramagem de um
carvalho antigo, com o peso dos
séculos aglutinados pelo céu
defronte dos olhos

não existe nem pode existir uma
pedra que determine as andanças
das estações. o carvalho antigo
é a semente e o profeta a dimensão
poética da palavra vivida.

Jorge Vicente (Ascensão do Fogo)

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Mystica

MYSTICA


a vivência do amor
dá-se no signo do
olhar

quando as palavras já
não se juntam nem se

iniciam. nada é perfeito
como a flor selvagem,

húmida, flexível ao
rebentamento das águas.

a união mística dos corpos
é o desembrulhar dos olhares
parados

da flor resta apenas a corola
em fogo.

Jorge Vicente (Ascensão do fogo)
*
*
Ao Jorge Vicente, que ontem cumpriu mais um aniversário, deixo um grande abraço.
Aconselho a todos uma visita ao seu blog.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Aos meus amigos

AOS MEUS AMIGOS

disseram-me que, de manhã,
se ouve o Tejo todo,
e que as pessoas transportam em
si aquela imensidade vasta,
como quem é feito de História
e não sabe porquê

disseram-me que o tempo não
volta ao lugar onde nasceu, e
que os amigos que se perdem são
como o areal à volta da minha casa:

os retalhos, as migalhas, a presença
sempre ausente das águas em
combustão

e a sensação de que sempre foi assim,
com aquelas mesmas pessoas,
com aqueles mesmos rostos,
por dentro da História
e com o Tejo debaixo dos braços

Jorge Vicente (Ascensão do fogo)



Jorge Vicente, nascido no Algueirão a 17 de Setembro de 1974, é, segundo Rui de Sousa escreveu no seu posfácio do livro “Ascensão do Fogo” (Edium 2008), “um ser humano que, como uma criança constantemente surpreendida com todas as coisa que a vida lhe oferece, sabe também estar consciente da dura realidade, com a qual tem de conviver, fazendo progressivamente o luto de todas as coisas que perdeu na sua caminhada.”
Com um olhar Humanista e atento à Natureza que o rodeia, Jorge Vicente escreve desde muito novo, contudo, foi só em 2002 que se iniciou na publicação em livro dos seus trabalhos, participando em diversas antologias.
Ascensão do fogo é o seu último trabalho, editado pela EDIUM em 2008.
Participa também activamente na Lista de discussão Encontros de Escritas.