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quarta-feira, 22 de março de 2017

A POESIA ...

A POESIA ...

"A poesia é rima clara?"
Perguntou, ninguém... a outro.
Ele riu na sua cara...
E respondeu, contrafeito:

A poesia é água na fonte.
Balada ao nascer do dia.
Gesto de amor, carinhoso.
Raiva e muita magia.
É sobretudo, inquietação.
Expectante... ou distante.
Poesia... é ser queixoso.

E se levar no queixume...
Pétalas de amor-perfeito.
Ou, imperfeição nas palavras...
Aí é sangue nas veias.
Burburinho, solidão.
É água que desliza no colo,
de uma mulher em parto.

Também é calos nas mãos,
ou suor de camponês...
Pode ser um carpido...
Indigente que pede esmola.
Ou: criança a brincar na rua.
Terra no rosto, olhos na lua...

A poesia pode encantar.
Sobretudo, deve ficar.
Na retina, além do tempo.
Para não ser, catavento...

Pode até ser rima.
Mas... muito mais do que isso.
é mutação em palavras.
Mesmo que derrape em safras
fogosas e corredias.

Ninguém... olhou o outro.
Sem saber do que falara.
Para ele a poesia, era...
Rimar e pronto!

Antónia Ruivo

quinta-feira, 17 de julho de 2014

A minha pena (décimas)

A MINHA PENA


Mote


Caprichosa a minha pena

Meu jeito de versejar
Por vezes é cantilena
E embala o verbo amar.


Estranho modo é ser poeta

Penso comigo em silêncio
Escrever versos é vazio
Ou então a porta aberta 
Muitas vezes é soberba
Pode ser modo de vida
Ou então estado de alma
Ser embriagado
Ou ego inebriado
Caprichosa a minha pena.

Martírio dias a fio

De olhos fitos se mantém
É de todos e ninguém
É água solta no rio
Sozinha trema de frio
Ao olhar olhos mortiços
Leva no regaço abraços
A quem da vida está cansado
Altivez ou simples fado
Meu jeito de versejar.

É mentira é verdade

Loucura em contramão
Por vezes é encontrão
Outras leviandade
Juro até é verdade
Que corre por entre as veias
Pode ser pernas sem meias
Onde faltam os sapatos
Gritarias espalhafatos
Por vezes é cantilena

Tudo isto num poema

Eu coloco a meu prazer
Versos... Eu sei fazer
Como quem reza novena
Sinto e chego a ter pena
Deste dom que Deus me deu
Pedinte ou camafeu
Tosco altar idolatrado
O meu cunho é afiado
E embala o verbo amar.

.

Poesia de António Ruivo



quinta-feira, 8 de março de 2012

Dia oito

Dia oito…

Doze meses tem o ano
Doze meses o engano
Virar de costas
Olhares arredios, impostas
Crueldades e barbaridades
Torturas, amedrontamentos
Doze meses de lamentos

Pergunto

Qual a beleza de um só dia
Porventura afasta a razia
De que servem palavras bonitas
Prendas atadas com fitas
São fitas, não saram golpes
Ramos de rosas são marionetas
Manipuladas são as vontades
Doze meses.

Pergunto

Onde está a beleza de um só dia
A sua utilidade é relembrar agonia
Em cada rosa desfolhada
Uma mulher é açoitada
Em cada sorriso aberto
Uma mulher morre aos poucos
Numa caixa de bombons
Morre além uma alma
Por isso não me peçam calma

Dia oito só existe
Porque a barbárie no mundo persiste.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Uma Prenda no Sapatinho

UMA PRENDA NO SAPATINHO...

Para ti que deixaste uma marca especial
É para ti que escrevo um texto de Natal
Nele coloquei azevinho, uma ave no ninho
Coloquei um ramo de oliveira no teu caminho
Coloquei uma estrela, pedirei que te abrace
Quando te sentires sozinho, que te enlace
Sentirás a minha presença numa aragem amena
A noite serena envolverá a sombra do teu olhar
Com uma luz capaz de alcançar
O meu coração desperto na saudade
Para ti escrevo neste Natal
Para ti que cruzaste o meu caminho
Não estarás sozinho
Porque o meu pensamento é teu
Peço ao menino que te lembres de mim
Peço ao menino que ilumine nosso céu
Assim as forças do universo transportarão carinho
Por ti e por mim, sorrisos sem fim
É a prenda que almejo no sapatinho.



Antónia Ruivo

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Vem...

Vem…

Vem, vem comigo ofertar um raio de sol
Levar ao mundo um sorriso de alegria
Vamos fazer da noite continuamente dia
Emaçar as dores num amplo e branco lençol

Desnudar do preto tornar em rouxinol
Aquela criança de além, que morre de asfixia
Os velhos cansados em adiposa agonia
O mundo raivoso embebido em metanol

Vamos estender o Natal que se avizinha
Pelo ano todo, e vais ver és mais feliz
Esquece as tuas dores, não passam de grainha

Num amontoado de vazio que maldiz
Esquecendo o outro que morre sem lamento
Vem, vamos olhar com olhos de eterno aprendiz.


quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Alento

ALENTO

Soltei-me de correntes
De amarras e grilhões
Larguei-me solta
Pela ladeira do incerto
Bati no fundo
Um novo recomeço
Sem olhar para trás
Emergi
De novo naufraguei
Nas asas do vento
Que me carregou no colo
Me deu alento
Agora 
Peço que o tempo me dê tempo
Para ser eu 
Ao vento, a dar alento

Antónia Ruivo (http://escritatrocada.blogspot.com
)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Nascer de um Verso

Nascer de um verso.

Diz-me vida, porque olho e te vejo
Ao longe, um tanto ou quanto difusa
Porque adormeço, na vastidão do Alentejo
Porque me sinto tantas vezes confusa

Ao olhar o dia, devia corar de desejo
Devia desabotoar os botões da blusa
Para que o sol me queime a pele, e num ensejo
Deixar que a terra faça de mim sua musa

Que cave socalcos na minha face alheia
Que se sacode, num não arrebatado
Devia-me deixar embalar na acalmia

Do calor tórrido, ou no Inverno gelado
Nas diferenças que este chão transporta
E aí terra, verias nascer um verso inacabado.

Antónia Ruivo  (Escrita trocada)

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Carrapatos Colados na Alma

CARRAPATOS COLADOS NA ALMA

Vejo e revejo
E não me reconheço
Perdi-me em dia de vento
Perdi pedaços no tempo
Esqueci o endereço

E agora…
Onde larguei o meu ser
Já não consigo enxergar
Nas rugas que vão vingando
Já não consigo encontrar
Os trilhos que fui pisando

Olho-me sem ver, cismando
Não reconheço os traços
Que teimam em mostrar
As marcas da vida
Ao passar…
Os amores por amar,
As raivas por acalmar
Os medos que teimei
Em não mostrar

Marcas nuas de sentimento
Que teimam em vingar
Parecem carrapatos
Colados na alma
Manipulam o silêncio
Que quase sempre me embala
Extravasam em doloroso sentir
No meu intimo a zunir

Que sou pedra por moldar
Pedra dura a teimar
Rolar, rolar
Sem o tempo ver passar
Sem trave para me agarrar.

Antónia Ruivo (http://escritatrocada.blogspot.com/)

Antónia Ruivo é natural de Montemor-o-Novo, e aconselhamos que conheçam melhor a sua escrita através de uma visita ao seu blog.