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quinta-feira, 4 de junho de 2015

                 A poesia alentejana
              É para ser dita ou cantada
              E quando é escrita e lida
              É sempre prejudicada

              Escrever bem não é poesia
              É cultura aprendida
              É uma parte da vida
              Aprender o que não sabia
              Mas ser poeta é teoria
              Muita gente se engana
              É uma vocação humana
              Que não se pode mudar
              É para se dizer ou cantar
              A poesia alentejana

              Escrita perde a beleza
              Perde a personalidade
              E baixa de qualidade
              Deixa de ser surpresa
              Porque são dotes que a natureza
              Entrega de mão beijada
              Só a pessoa dotada
              Pode e sabe apresentar
              Porque a poesia popular
              É para ser dita ou cantada

              Ouçam com atenção
              As guitarras a tocar
              E os poetas a mostrar
              Toda a sua vocação
              Mantendo uma tradição
              Que não pode ser perdida
              Jamais será esquecida
              São palavras do autor
              Mas perde muito do seu valor
              Quando é escrita e lida

              Quem escreve quer emendar
              O que não sabe fazer
              E de bem que quer escrever
              Começa a prejudicar
              Porque a poesia vulgar
              Bem ou mal interpretada
              Tem que ser ouvida e julgada
              Por poetas valorosos
              Se for escrita por curiosos
              É sempre prejudicada

Eusébio Pereira (O Papeleiro) nasceu em 1915, no "Monte da Caveira", concelho de Grândola, onde os seus pais trouxeram ao mundo sete irmãos, entre os quais a poesia popular se revelou um elemento caracterizador, de natureza genética.
Apenas em 204, já com quase noventa anos, se dispôs a publicar algumas das suas cantigas, cujo resultado foi o livro autobiográfico (como o próprio autor reconhece) com o título "Retalhos de uma vida em poesia popular".

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Relíquias

RELÍQUIAS

Na ex-tasca do Aranha
Uma casinha modesta
Fica a capela do fado.
Canta-se o fado com gana
Refúgio de gente honesta
A lembrar tempo passado.

Quando a noite se vislumbra
Fica a capela em penumbra
Ao gosto do cantador.
E em sextilhas magoadas
Recordam-se antigas quadras
restos de outros amores.

Peixe frito e bacalhau
Um sorriso de mulher
Esta vida é mesmo assim.
Vinho a dar c'um pau
Regalo para qualquer um
Ouvir cantar o Joaquim.

Milhentas recordações
Perfiladas lado a lado
Lembram passado e presente.
São elas os guardiões
P'ra que a capela do fado
Seja fado p'ra toda a gente.

Jacinto José Carlos Guerreiro
http://rimacom.blogspot.com

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Sou Brado de um Ser

SOU BRADO DE UM SER

Sou Brado de um Ser.

Sou filho de um berço ...
Que é feito de palha, e cheira a verdura...

Sou feito de um Maio...
Coberto de flores, chorando a censura...

Sou eterno gaiato...
Que brinca nos campos, a brincar com nada...

Sou força de um tempo...
Que um dia sorriu, e se fez alvorada...

Sou sonho que emerge...
Por entre o restolho, e se esvai no pousio...

Sou conto sem fadas...
Que avança no tempo, que não se contou...

Sou grito da alma...
Que brada no céu, e cai no vazio...

Sou poeta que avança...
Por entre o destino, sem saber quem Sou!...

António Prates

quinta-feira, 17 de julho de 2014

A minha pena (décimas)

A MINHA PENA


Mote


Caprichosa a minha pena

Meu jeito de versejar
Por vezes é cantilena
E embala o verbo amar.


Estranho modo é ser poeta

Penso comigo em silêncio
Escrever versos é vazio
Ou então a porta aberta 
Muitas vezes é soberba
Pode ser modo de vida
Ou então estado de alma
Ser embriagado
Ou ego inebriado
Caprichosa a minha pena.

Martírio dias a fio

De olhos fitos se mantém
É de todos e ninguém
É água solta no rio
Sozinha trema de frio
Ao olhar olhos mortiços
Leva no regaço abraços
A quem da vida está cansado
Altivez ou simples fado
Meu jeito de versejar.

É mentira é verdade

Loucura em contramão
Por vezes é encontrão
Outras leviandade
Juro até é verdade
Que corre por entre as veias
Pode ser pernas sem meias
Onde faltam os sapatos
Gritarias espalhafatos
Por vezes é cantilena

Tudo isto num poema

Eu coloco a meu prazer
Versos... Eu sei fazer
Como quem reza novena
Sinto e chego a ter pena
Deste dom que Deus me deu
Pedinte ou camafeu
Tosco altar idolatrado
O meu cunho é afiado
E embala o verbo amar.

.

Poesia de António Ruivo



domingo, 8 de dezembro de 2013

O luar afaga o folhado
que liberta o perfume da Serra.

O voo do falcão
acalenta esperanças
num rio adormecido.

Unem-se os atalhos
e a magia acontece
por entre veredas e orações.

Frei Agostinho sorri
e escreve poemas
nas alvas paredes do Convento.

É quando Deus acredita nos Homens!

Alexandrina Pereira (Arrábida meu amor, meu poema - 2013)

segunda-feira, 25 de março de 2013

Alentejo

Alentejo

Guardei o sol na bagagem
Deixei o vento a chorar
Despedi-me dessa aragem
Tão fresquinha ao madrugar

No talego, a liberdade
De caminhar sem prisão
Dos montes, ai que saudade
Quando os subia no verão

A chuva, tenho-a no bolso
Sequei a roupa, à lareira
Guardei as dores, no dorso
P'ra lembrar a vida inteira

Com saudades, estou cantando
Esse ALENTEJO que encanta
Sinto as lágrimas, deslizando
Até ao nó da garganta

Manuela Tomé
http://www.facebook.com/caminhosdofuturo

quinta-feira, 8 de março de 2012

Dia oito

Dia oito…

Doze meses tem o ano
Doze meses o engano
Virar de costas
Olhares arredios, impostas
Crueldades e barbaridades
Torturas, amedrontamentos
Doze meses de lamentos

Pergunto

Qual a beleza de um só dia
Porventura afasta a razia
De que servem palavras bonitas
Prendas atadas com fitas
São fitas, não saram golpes
Ramos de rosas são marionetas
Manipuladas são as vontades
Doze meses.

Pergunto

Onde está a beleza de um só dia
A sua utilidade é relembrar agonia
Em cada rosa desfolhada
Uma mulher é açoitada
Em cada sorriso aberto
Uma mulher morre aos poucos
Numa caixa de bombons
Morre além uma alma
Por isso não me peçam calma

Dia oito só existe
Porque a barbárie no mundo persiste.