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quinta-feira, 28 de maio de 2009

Ias na Proa da Barca

IAS NA PROA DA BARCA


Ias na proa da barca, singela.
Teu olhar vogava à flor das águas
e tua mão tocava-as, distraída.

Eu era teu barqueiro.
Fazia deslizar os remos, silencioso.

Mas já atearas em meu corpo
o rastilho do amor. E como a mariposa,
era atraído à tua chama intensa
Só me falta arder no teu incêndio.

Avelono de Sousa (poemas)

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Carrapatos Colados na Alma

CARRAPATOS COLADOS NA ALMA

Vejo e revejo
E não me reconheço
Perdi-me em dia de vento
Perdi pedaços no tempo
Esqueci o endereço

E agora…
Onde larguei o meu ser
Já não consigo enxergar
Nas rugas que vão vingando
Já não consigo encontrar
Os trilhos que fui pisando

Olho-me sem ver, cismando
Não reconheço os traços
Que teimam em mostrar
As marcas da vida
Ao passar…
Os amores por amar,
As raivas por acalmar
Os medos que teimei
Em não mostrar

Marcas nuas de sentimento
Que teimam em vingar
Parecem carrapatos
Colados na alma
Manipulam o silêncio
Que quase sempre me embala
Extravasam em doloroso sentir
No meu intimo a zunir

Que sou pedra por moldar
Pedra dura a teimar
Rolar, rolar
Sem o tempo ver passar
Sem trave para me agarrar.

Antónia Ruivo (http://escritatrocada.blogspot.com/)

Antónia Ruivo é natural de Montemor-o-Novo, e aconselhamos que conheçam melhor a sua escrita através de uma visita ao seu blog.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Em Casa Deixou Amor

EM CASA DEIXOU AMOR


Desce o rio o pescador
Na sua barca enfeitada
Em casa deixou amor
De farnel quase nada

Lança as redes a preceito
Nas águas calmas do rio
Tem a esperança no peito
Suas mãos tremem de frio

Pescador recolhe a rede
Torna a rede a lançar
Bebe um golo, mata a sede
E continua a remar

Sobe o rio o pescador
Já cansado da jornada
Em casa deixou amor
Mais força em cada remada

José Raposo (Afectos e Cumplicidades)

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Escultura

ESCULTURA

Fui rebelde no teu desejo,
No simples afagar da alma,
Cruel no acenar do adeus
Que todos os dias revejo,
Preso em correntes de calma,
Destes momentos sempre teus.

Vagueei nos rumos da sorte,
Do esperar por tua doce voz,
Eclipse de carinhoso sorriso
Olvidado em mãos de consorte,
Tu e eu, os dois aqui, a sós
Tudo o que agora preciso.

Faço-me cais do teu navegar,
Gávea soprada pelo vento
Em odor do teu maio belo.
Rebento como onda nesse mar
Na fúria louca do desalento
Nos murais de teu castelo.

Seduzes-me em lauta beleza
De lúzios cor de eternidade,
Brilho raro e ofuscante
Que esconde tamanha tristeza,
Paixão feita simplicidade,
Corpo esculpido, viciante.

Fernando Saiote (Pedras Soltas)

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Alento/Alentejo

ALENTO/ALENTEJO

Verso de sede
nas pedras do tempo,
sangue e revolta
no peito do Homem,
perfume de esteva
a embalar a fome,
pegada teimosa
em veredas de vento,
Alentejo é a procura
De mais céu e de Alento…

Luís F. Maçarico (A Celebração da Terra)