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quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Um Nome Apenas

UM NOME APENAS


não existe uma dimensão sacerdotal
do amor as vestes são as mesmas
que enfeitam a ramagem de um
carvalho antigo, com o peso dos
séculos aglutinados pelo céu
defronte dos olhos

não existe nem pode existir uma
pedra que determine as andanças
das estações. o carvalho antigo
é a semente e o profeta a dimensão
poética da palavra vivida.

Jorge Vicente (Ascensão do Fogo)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Dura Faina

DURA FAINA

A chuva cai insistente e impiedosa,
Fustiga a caravela que dança na vaga,
A chusma desnorteada prega aos céus…
Sufocam-se as vozes que clamam compaixão,
Perversos deuses que permitem a ilusão
Dos homens que labutam e se tornam réus
Jogados sem culpa no mar que os apaga
Mãos pintadas de sangue em tons de rosa.

Família amargurada que perde seu pai,
Que a fome decepa por culpa de ninguém…
Culpa solteira que é de tantos
Culpa envergonhada que traça corações.
Olha-se ao longe o brilho dos arpões
Em terra, rostos gastos pelos diários prantos,
No bolso contam-se os trocos, de vintém em vintém,
Espera-se o fim da faina quando a lua cai.

O sal queima-lhes rugas salientes,
As suas roupas fétidas não escondem o trabalho.
As gaivotas… essas sim voam divertidas,
Avisam os homens para quando a tempestade
São mensageiras da desgraça e da verdade,
Conhecem as marés, os ventos e estas parcas vidas.
Praias desertas cobertas de cascalho,
Viúvas chorosas e impacientes.

Semblantes carregados de triste olhar,
A velhice passada na mesa da taberna
A lembrar os mares revoltos que davam luta,
As redes cheias do melhor peixe do mercado,
Andar lento e trôpego de pescador revoltado.
A revolta desta vida filha de puta,
Que dorme ao relento à porta da caserna
Ao frio, ao passado… ao mar.

Fernando Saiote (Pedras Soltas)


Fernando Jorge Matias Saiote nasceu a 4 de Fevereiro de 1970 em Montemor-o-Novo, onde reside.
Como se escreve no prefácio da sua obra “Pedras Soltas”, “falar de Fernando Saiote em termos literários é, um pouco, descrevê-lo na sua forma de pessoa. A sua escrita é profícua em adornos e muito rica na sua composição vocabular. Quase se poderia dizer que cada textoé filtrado várias vezes, em busca da perfeição, antes de ser mostrado ao leitor.”
É uma poesia em que o poeta se desnuda, mostrando a sua tristeza e solidão, numa curiosa relação com o passado e o presente.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Na horta

NA HORTA

Na horta do Ribeiro do Passarudo,
Cresce a couve e umas outras hortaliças...
Há cebolas, grandes nabos e nabiças,
Muita salsa, alguns alhos e quase tudo...

Nessa horta há amoras encarnadas
E, outras pretas que nas silvas fazem barda...
Há batatas e um cão que faz de guarda,
Contemplando as alfaces bem regadas...

Os poejos, estão espalhados lá p´ró fundo,
Beldroegas são criadas sem canteiro...
Junto ao tanque, e à sombra do limoeiro,
Os coentros são temperos de outro mundo...

Os pimentos são a vida deste hortejo,
Verdejantes, e a sorrir para os melões...
Ao lado, os tomates e os agriões,
Demonstram que esta horta é Alentejo...

António Prates (em “ Sesta Grande”)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Dança

DANÇA

Entre o vazio da sala e eu
permanece fixa a tua presença,
obstinada,
alicia como quem despe com o olhar
os meus sentidos,
arrepia a minha vontade
como a lâmina de uma espada
e faz tremular a memória
ainda casta.

Inspiro o teu perfume que as paredes libertam
e a minha face ergue-se
à procura do teu beijo.
Não te alcanço.
O corpo vem por arrasto.
Não te alcanço!
Os braços estendem-se para abraçar as
partículas que ainda restam.
Não te toco!
Giro, volteio, revoluteio.
Não te encontro…
O delírio atira-me ao chão
mas a vontade ergue-me a face
à procura do teu beijo.

Vera Carvalho
(Antologia Poética – Amantes das leituras 2008)