DURA FAINAA chuva cai insistente e impiedosa,
Fustiga a caravela que dança na vaga,
A chusma desnorteada prega aos céus…
Sufocam-se as vozes que clamam compaixão,
Perversos deuses que permitem a ilusão
Dos homens que labutam e se tornam réus
Jogados sem culpa no mar que os apaga
Mãos pintadas de sangue em tons de rosa.
Família amargurada que perde seu pai,
Que a fome decepa por culpa de ninguém…
Culpa solteira que é de tantos
Culpa envergonhada que traça corações.
Olha-se ao longe o brilho dos arpões
Em terra, rostos gastos pelos diários prantos,
No bolso contam-se os trocos, de vintém em vintém,
Espera-se o fim da faina quando a lua cai.
O sal queima-lhes rugas salientes,
As suas roupas fétidas não escondem o trabalho.
As gaivotas… essas sim voam divertidas,
Avisam os homens para quando a tempestade
São mensageiras da desgraça e da verdade,
Conhecem as marés, os ventos e estas parcas vidas.
Praias desertas cobertas de cascalho,
Viúvas chorosas e impacientes.
Semblantes carregados de triste olhar,
A velhice passada na mesa da taberna
A lembrar os mares revoltos que davam luta,
As redes cheias do melhor peixe do mercado,
Andar lento e trôpego de pescador revoltado.
A revolta desta vida filha de puta,
Que dorme ao relento à porta da caserna
Ao frio, ao passado… ao mar.
Fernando Saiote (
Pedras Soltas)
Fernando Jorge Matias Saiote nasceu a 4 de Fevereiro de 1970 em Montemor-o-Novo, onde reside.
Como se escreve no prefácio da sua obra “Pedras Soltas”, “
falar de Fernando Saiote em termos literários é, um pouco, descrevê-lo na sua forma de pessoa. A sua escrita é profícua em adornos e muito rica na sua composição vocabular. Quase se poderia dizer que cada textoé filtrado várias vezes, em busca da perfeição, antes de ser mostrado ao leitor.”
É uma poesia em que o poeta se desnuda, mostrando a sua tristeza e solidão, numa curiosa relação com o passado e o presente.