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quinta-feira, 31 de julho de 2008

Dentros dos livros

DENTRO DOS LIVROS

Dentro dos livros
marcas de quando os lemos.
Bilhetes de cinema,
autocarro, apontamentos
com demasiadas
abreviaturas, folhas
que dizem “não esquecer”
e foram esquecidas.

Nesta tarde li este verso.
O romance na pág. 89.
Agrupar os eventos
por contiguidade, remissão,
a data muito precisa
destes acasos
mais importantes
que a biografia.

Pedro Mexia (Em Memória)

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Disseste-me em surdina...

DISSESTE-ME EM SURDINA…

Disseste-me em surdina, ao meu ouvido
palavras que não ouso revelar.
Todo o segredo havido entre nós dois
Só o partilharemos com o mar.

Disseste-me palavras nunca ouvidas
palavras de desejo, ciciadas,
que só os amantes pronunciam
e se fundem no som alto das vagas.

O que me disseste e o que eu te disse
p’ra sempre o haveremos de calar.
A não ser que outros amantes as escutem
na rebentação larga do mar.

Avelino de Sousa (Poemas - MMV)

quinta-feira, 17 de julho de 2008




A meu lado nada existe
Triste
Amargurado
Só, nesta negra solidão
Já não sei rir
Porque me tiraram o sorriso
Já não sei amar
Porque só me deram o ódio
Sigo apenas caminhos
Que não me levam a lugar nenhum
Só, neste silêncio tão triste
Onde o bater do coração
Não é mais que lamentos
Como uma ilha no mar dos meus pensamentos.

José Raposo (Afectos e cumplicidades)

quinta-feira, 10 de julho de 2008

No princípio

NO PRINCÍPIO

Naquele tempo, os senhores
ainda eram só pastores.

Sofriam o tempo agreste
lado a lado com os servos
e olhavam os seus acervos
como uma bênção celeste.

Já nesse tempo a riqueza
era um privilégio raro
e afrontava a natureza
com loas ao desamparo.

Já então o verbo erguia,
em armadilhas e ardis,
o poder que anestesia
os rebanhos nos redis.

Gabriel de Fochem (Amantes das leituras - Antologia 2008 - Edium)


José-Augusto de Carvalho, que também assina como Gabriel Fochem, nasceu em Viana do Alentejo em Julho de 1937.
O seu primeiro livro, “arestas vivas” foi editado em 1980. Seguiram-se “sortilégio” em 1986, “tempos do verbo” em 1990, “vivo e desnudo” em 1996, “Nós Poesia”, com Lizete Abrahão, em 2002, “A instante nudez”, em 2005, “Da condição Humana”, em 2008, e a participação em “amantes da leitura – Antologia”, em 2008.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Eternidade

ETERNIDADE

Ah, se eu pudesse
Espraiar as minhas memórias com a leveza da brisa
E render-me ao sorriso que elas me trazem
Resumia os dias àquilo que te caracteriza.

Entregava-me ao sol e ao mar
Baloiçada pelos segredos que as ondas guardam
E o rubor que emergia das minhas faces
Denunciavam-te à linha que os olhos talham.

Ah, se eu pudesse
Navegar junto a ti numa canoa
Flutuar desprendida dos pés que me agarram à vida
Morrer seria até, coisa boa.

Despia-me da fisionomia
Enredada aos trapos da saudade
E aconchegava-me ao vermelho da carne
Até à eternidade
.

Vera Carvalho (Antologia poética “amante das leituras”)


Vera Lúcia Leite Carvalho nasceu em Amarante em 1980.
Licenciada em Ciências da Educação, tem percorrido o Norte do país exercendo a actividade de docente.
Moderadora do blog “amantesdaleitura”, tem desenvolvido um vasto trabalho poético também noutros sites de poesia.
Está representada na “Antologia poética Amantes da leitura” e na “Antologia de Natal”, da Edium editores, e na “Antologia poética Nas águas do verso”, da Edições Ecopy.