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quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Desmistificação

DESMISTIFICAÇÃO

Trago nos pés o cansaço
que há em todas as estradas!
Palmilhei-as passo a passo
e nunca as dei por andadas!...

Descanso junto aos valados
Dormia comigo a lua,
e a meu lado, toda nua,
os dois, num só, abraçados!

O sol vinha com o orvalho,
acordar-nos!
Eu voltava ao meu trabalho;
eu ao céu, já manhã cedo.
Até que a noite, em segredo,
vinha de novo abraçar-nos…


José Augusto Carvalho (Antologia Poética - Amante das leituras 2008)

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Entre as duas e as três

ENTRE AS DUAS E AS TRÊS

Queria falar do que não tem concerto;
as letras desenhadas e compostas
com que confundo o espaço do papel,
a angústia compassada no contar
e a súbita alegria de ser eu
penosamente, ás duas da manhã

Queria escrever do que não tem lugar;
a branca, doce e sonolenta estrada
onde espaçadas as palavras crescem,
suavizadas pelo lento sono
que devagar percorre as coisas todas
penosamente, ás duas da manhã

Queria dizer do que não tem conserto;
ou seja, eu; ou seja, o papel branco
sombrio agora por já ser demais,
as letras excedentes e sonoras
desmembrando o silêncio e a noite toda
penosamente, ás duas da manhã

Só então falarei do que ficou;
compassada alegria desenhada
na angústia de dizer sem me contar,
o papel confundido de impotente
e todavia prontas as palavras.
Quase ás três da manhã. Penosamente.

Ana Luísa Amaral (Coisas de partir)

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Olhando o Mar

OLHANDO O MAR

Fico na praia olhando o mar…
Uma linha no horizonte separa o infinito,
Um local onde a terra abraça o céu,
E que marca o início e o fim,
Num ciclo que contempla a existência…
Embarco na minha nau de papel,
Faço-me ao largo, procuro novas fronteira,
Elevo o meu espírito, liberto o meu ser…
Na eternidade, navego no meu sonho…
Conquisto o espaço, tendo Neptuno como companheiro…
O vento sopra, enche as minhas velas feitas de tecido,
É tempo de manobrar a embarcação… seguir a rota, o destino,
Olho para o céu, as nuvens seguem o meu caminho.
Pedaços de algodão que salpicam o meu tecto,
Sozinho na imensidão do azul, escuto a minha voz…
Sinto o tempo a passar, memórias completam o momento,
Uma vida feita de alegria, lágrimas, gestos, amores e feridas
Escritas num diário da vida de um marinheiro,
Lembranças de tempos idos, recordações perdidas…
E naquela paz, naquele mundo,
Uma onda salpica o casco da embarcação…
Acordo…
E fico na praia, olhando o mar…

Luís Ferreira (Mar de Sonhos)

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Bocage

BOCAGE


Do alto da tua praça
Tu vês a vida passar.
Vês os pombos namorar
Vês um palhaço com graça
Vês também muita desgraça
Quantas vezes disfarçada
Vês quem nunca fez nada
Afirmando que faz tudo
Mas tu continuas mudo
Com tua boca fechada

Vês polícias, vês ladrões
Vês as festas e as lutas
Vês os putos e as putas
Empregados e patrões
Atropelos, empurrões
Mais um piropo com graça
Dito à garina que passa
E não tem nada a esconder
Tudo isto tu podes ver
Do alto da tua praça.

Senhoras passeiam cães
As criadas os meninos
Na igreja tocam os sinos
Tu vês passar os fiéis
Que levam brinco e anéis
Mas que não sabem rezar
Vês turista fotografar
E faça frio ou calor
Com teu olhar sonhador
Tu vês a vida passar.

José Rasquinho

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Toda a Praia

TODA A PRAIA

Toda a praia
era nossa
no calor da noite…

O mundo era nosso
(tão pequenino o mundo)

A tua voz
era maior que o mundo
(a tua voz!)

O mar!
(tão pequenino o mar)

O teu corpo
se dobrava
num ritmo louco…

Dizias sempre:
quando eu partir
vem aqui, promete
chama por mim…

José da Fonte Santa (Magia Alentejana – Poesia e desenhos)


José da Fonte Santa (1925-1998), natural de Colos, viveu em Santiago do Cacém desde os oito anos.
A vida literária deste poeta, prosador, e desenhador, teve início com a publicação, em 1954, da novela “Silêncio quebrado”. Em 1957, de parceria com mais alguns poetas, publicou, em Santiago do Cacém, o número um de “Encontro – Cadernos de poesia”. Colaborou com alguns jornais e revistas, e participou na “Antologia de poetas do sec. XX”, organizada por Francisco Dias da Costa, em 1982.